Mais uma vez: Portugal! Por quê?

Porque abandonar o Brasil e morar em Portugal? Por Ione Omena

Estamos cansados de ouvir falar dos problemas sociais, ambientais e econômicos que existem no Brasil, falta segurança, falta educação e saúde pública, falta tolerância, infelizmente falta tanta coisa e sobra desigualdade, exclusão e injustiça.

Infelizmente as oportunidades não são oferecidas a todos os cidadãos brasileiros e a miséria, material e intelectual, é uma lástima. A violência urbana assusta muito, a impunidade revolta, a corrupção e a ineficiência, tanto do governo como da iniciativa privada são estímulos para a indignidade.Amo a vida que levo hoje em Portugal. Aprendi tantas coisas, e continuo aprendendo a respeitar mais as diferenças, ser flexível e descobri a diversidade de raças, culturas, estilos de vida e pensamentos muito diferentes do meu, e dos brasileiros, muitas vezes machistas, comodistas e hipócritas.

portugal mapa

Os portugueses são afáveis e acolhedores, na minha opinião e na de muitas pessoas que moram aqui, são carinhosos, recebem bem os visitantes, venham de onde vierem.

O choque cultural me forçou a perceber que minha visão de mundo está longe de ser a mais correta e que preciso expandir ainda mais. Aprendi que cada pessoa é um mundo e que cada um de nós cuida de seu próprio terreno, sem precisar ser superficial e forçado, morando fora aprende a se tornar uma pessoa melhor, a ser adaptável e resistente.

Aprendi ainda que há mais vida para além do trabalho e das responsabilidades. Viver com emoção, re-energizar a vida e sempre se surpreender com alguma coisa é fundamental. Reavaliei tudo que é realmente importante, um diferencial tanto para minha vida pessoal quanto profissional.

Aprendi que uma cidade não é formada por um bairro ou dois, é uma só, sem divisões, a diferença de classe que existe no Brasil, é muito menor aqui na Europa. Todos podem ter acesso a saúde, educação, aposentadoria, somos todos iguais. Isso é fantástico! Mesmo com pouco dinheiro as pessoas podem ter uma vida cultural agitada, podem se divertir e ainda viajar por muito pouco.

Aprendi ainda que as diferenças nem sempre geram integração, que imigrante tem que ser ainda mais esforçado, que tem que lutar muito para conseguir se estabelecer e que, por questões que fogem as suas capacidades, nem sempre consegue conquistar o que quer. E que apesar de tanta tolerância e igualdade por um lado, pode ser bastante preconceituoso e injusto por outro.

Então, depois de conviver com tantos outros valores e realidades, muitas vezes penso que não tenho vontade de voltar a morar no Brasil. Aprendi a atravessar uma rua pela faixa de pedestre sem medo de ser atropelada, a andar com meu computador na bolsa sem medo, de ouvir uma música no iPhone enquanto faço minha corrida na praia sem medo de ser roubada, aos domingos ir para o parque público ver famílias inteiras fazendo piqueniques ou crianças soltas jogando bola, entrar num ônibus sem medo e ver o motorista ajudando um deficiente a entrar, essas coisas parecem tão simples, mas que no Brasil não existe.

Gosto de ir para Maceió, rever meus amigos, passar tempo com minha família, comer todas as comidas que mais adoro e sinto falta. Mas confesso que não sinto nenhuma vontade de voltar a morar lá. Sei que as praias são maravilhosas, as pessoas são fantásticas, a comida é boa, mas não existe preço que pague a minha liberdade, de poder andar sozinha a noite na rua, de ter transporte público de qualidade, de não ter medo de ser assaltada ou que a minha vida está em constante perigo.

E quando pensei em voltar para o Brasil há uns anos atrás, e se readaptar à antiga cultura, sabia que seria pior que a dificuldade que tive em me adaptar aqui. Não, não é só geografia, nem tampouco é apenas culinária, cultura ou economia. É que o país de onde eu vim, também não existe mais, tudo muda, a minha cabeça mudou, os meus amigos mudaram. As “coisas” não ficaram lá esperando por mim, o choque dessa diferença seria muito grande.

portugal

NEM TUDO É PERFEITO

O impacto psicológico da distância da família, o fato de ser estrangeiro, a dureza dos invernos aqui (minha cidade no Brasil é verão o ano todo e foi muito duro no início), a falta dos amigos, passar datas importantes longe de quem a gente gosta…

Reconstruir a vida não é fácil. Fiz alguns amigos por aqui e não tenho do que reclamar. Sempre fui bem tratada, tive oportunidades para além das minhas expectativas, terminei a faculdade na Universidade do Porto, o curso de arquitetura é considerado um dos melhores da Europa, fiz muitos curos que sempre quis fazer e não ia ter a mesma oportunidade no Brasil, conheci muitas pessoas nesses cursos que fizeram muita diferença na minha vida. Mas os amigos que deixamos faz uma falta enorme!

Em Portugal teoricamente falamos a mesma língua, a verdade é que são muitas palavras diferentes e outras iguais com significados totalmente diferentes que as vezes me pergunto se falamos de verdade a mesma língua, aprendi as palavras que eles usam e não foi fácil.

SEMPRE SEREI ESTRANGEIRA

O choque cultural dói e não é pouco. Depois aprendi a conviver com isso, mas no início foi bem complicado ter minha visão de mundo desafiada, forçar meu jeito de pensar e ser “a brasileira”.

Mesmo morando anos em Portugal, nunca vou ser portuguesa de verdade, não consigo falar com o sotaque português, não penso da mesma forma, tem coisas que aprendi no Brasil que não são iguais, tem sempre diferenças que por mais tempo que fique aqui, a verdade é que não nasci aqui, não fui criada aqui, não cantei as músicas infantis que eles cantaram escola, não vi os mesmos desenhos animados, não tive os mesmo brinquedos na infância, não fui educada da mesma maneira e por mais que eu adquira a cultura do lugar, as diferenças sempre vão existir.

Eu sempre serei “a brasileira”, a “que fala diferente”, a “estrageira”. E tem horas que isso cansa. Por outro lado, se cansa, tem coisas que compensam, e nem tudo é dificuldade.

Há muito o que se ganha depois que se paga o preço de aprender com a dor e as dificuldade, sobreviver depois de tudo é espetacular.

Fonte: ioneomena.com

portugal

Gostei muito deste texto de Ione Omena e compatilho com vocês aqui essas frases abaixo que mais me chamou atenão!  E para você? Comente aqui a sua frase, ok? Cyntia Candela

  • somos todos iguais. Isso é fantástico!
  • mas não existe preço que pague a minha liberdade…
  • fiz muitos cursos que sempre quis fazer e não ia ter a mesma oportunidade no Brasil…
  • sobreviver depois de tudo é espetacular.
Leia também:
O alto preço de viver longe de casa! Por Ruth Manus
Portugal pode não ser o paraíso que você imagina!  Por Nataly Lima

 

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8 comentários

  1. Excelente texto e comentários …. concordo plenamente com o Marcelo, o que vivemos ficará em nossas lembranças como nostalgia! Se passou é passado e não volta mais. Morei um ano na Australia e foi o melhor da minha vida. Acabei voltando por causa da família, pq os tempos eram outros e agora a coisa está degringolada em todos os sentidos. O desrespeito e a intolerância é pior que a política e a economia brasileira. As pessoas estão egocêntricas demais e não pensam mais no próximo, um querendo puxar o tapete do outro por inveja, ambição ou pela pura maldade mesmo (coisa de índole). Acabei exonerando do meu cargo efetivo na prefeitura, primeiro pq estava ficando doente por causa da minha profissão e segundo, pq tudo o que estava acontecendo ia contra aos meus valores e princípios. Vontade de sair do Brasil não falta, porém pra tudo existe um tempo certo de maturação, o fruto nunca cai do pé antes da hora. Obrigada pelo post, vou compartilhar! Boa sorte pra todos nós e mta sabedoria pra enxergarmos as oportunidades no momento certo. Abraços!

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    • Esteliana, quando a gente sente na pele uma realidade social melhor, mais segura, etc, sentimos a dor do regresso com a falta das coisas boas que vivemos e em acreditar também que ainda é possível a gente conquistar novos horizontes. Boa sorte, Cyntia

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  2. Cintia Candela, Excelente o texto da Ione Omena. Já viajei um pouco pela Europa, até a Escandinávia, EEUA, Argentina, Uruguai, e pelo bastante pelo nosso Brasil. E a experiência me diz que ao sairmos da nossa casa porque casamos, ou por outro motivo, ao voltarmos já não é mais a mesma casa. A vida está em permanente mudança sem que nos demos conta disto. Acontece até entre casais que por um motivo ou outro se distanciam um pouco, por conta de trabalhos infindáveis, viagens a trabalho, cursos curriculares, ou extracurriculares, novos círculos de amigos, filhos, e muito mais, e quando se dão conta estão em caminhos paralelos, porque se esqueceram de namorar diuturnamente. É triste, mas é um fato mais comum do que se pensa. Alguns se acomodam por preguiça, outros correm atrás de resgatar a felicidade, ou procura-la em outro lugar. E ao viajarmos não é muito diferente, pois nos desadaptamos daquela situação de conforto deixada para trás, e quanto mais longa a viagem ou período sabático pior fica a alma ao voltar. E talvez por isto, muitos não conseguem viajar por mais de sete dias, devido a este medo calado lá no fundo. Costumo viajar por um mês ou mais, e de preferência ficando num mesmo local ou região. E pelo fato de viajar para algumas nações mais experientes, quando volto me sinto um ET por dias a fio. Eu resumo na seguinte expressão da nossa língua, NOSTALGIA. Creio que não sentimos saudades, nós sentimos nostalgia de um momento no tempo e no espaço, que nunca, jamais se repetirá. Em absolutamente tudo. Na minha Copacabana de 1960, onde cheguei a brincar com meus amigos num terreno baldio na avenida Atlântica. Numa avenida Atlântica de poucos carros, e uma pista singela. É pura nostalgia, de um mundo que nunca mais voltará. E o pior é que sinto que o tecido social se esgaçou tanto que me parece como se este tecido fosse hoje um farrapo. Não se vê mais famílias indo a missa nas manhãs de domingo com seus filhos, não os levam mais as matinês. As refeições são feitas na frente de uma TV ligada 24h por dia, e por onde são catequizados, e também por onde têm suas mentes lavadas e enxaguadas diuturnamente pelo poder da mídia que escraviza o pobre brasileiro, e lhes incute a verdade conveniente do momento. Enfim, gosto de uma poesia de Antonio Machado, “Caminhante”, e que sintetiza em poucas palavras a caminhada da vida:

    … Caminhante, são teus passos
    o caminho e nada mais;
    Caminhante, não há caminho,
    faz-se caminho ao andar.
    Ao andar se faz caminho,
    e ao voltar a vista atrás
    se vê a senda que nunca
    se voltará a pisar.
    Caminhante, não há caminho,
    mas sulcos de escuma ao mar…

    Sds,
    Marcelo Castro

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    • Marcelo, obrigada pelo seu belo comentário, assim vemos que quem estar em outra realidade fora do Brasil, além de perceber bem as diferenças contrastantes, percebe-se que ao regressar ao Brasil, tudo fica ainda mais diferente. Sou de Fortaleza e morei em Brasília e quatro anos em São Paulo… e vejo quantas diferenças tem de uma região para outra em nosso grande Brasil, imagina quem tem a oportunidade de conhecer e viver fora do Brasil. Enfim, o caminhar se faz em passos que não há regresso. No pensamento, nostalgia, podemos até viver alguns sentimentos bons que o passado nos faz recordar, mas em nosso caminhar gosto de refletir como nossos pés que estão fisicamente apontando a direção a frente e ao deitar no repouso da noite tão necessário, eles estão em direção do Alto (Colossenses 3,1), nada de passos atrás ou depressão, regressão. Abs, Cyntia

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  3. Adorei todo texto.
    Estou passando por um processo de “desapegar de tudo” aqui no Brasil.
    Ou seja, estou vendendo carro e apartamento aqui na Barra da Tijuca Rio de Janeiro, para gerar renda junto com minha aposentadoria e sair dessa selva de pedra.
    Me aguardem…..”pode ir armando e preparando aquele bacalhau, porque estou chegando”

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